segunda-feira, 9 de maio de 2016

Maternidade

Falar sobre maternidade sem cair nos clichês e sem ser repetitiva é difícil. Um desafio pra mim, que odeio ser redundante e dizer mais do mesmo. Mas eu tento. Vamos lá!

Ontem foi meu segundo dia das mães com a Duda. Um dia, como muitos dizem, meramente comercial. Ok, beleza. Mas se não fosse isso, quando pararíamos um momento sequer pra refletir sobre a importância das nossas mães e homenageá-las? Se você já é mãe, sabe do que eu estou falando. Se não é, acredite: as mães merecem e precisam desse dia.

Quanto mais o tempo passa, mais certeza eu tenho de que a maternidade não é pra qualquer uma. Mais eu respeito as mulheres que optam por não serem mães. É o maior exemplo de altruísmo que um ser humano é capaz de viver. E mesmo assim, há ressalvas, porque nós necessitamos ser reconhecidas e homenageadas sim. Sem hipocrisia. Não há melhor sensação, depois de um dia todo se doando, se cansando, batalhando, trabalhando e cuidando de um ser humano, do que receber um abraço, um beijo e um 'eu te amo'. Nós também temos interesse em receber algo em troca por tudo o que fazemos. A diferença é que o que nos satisfaz é algo bem pequeno. É só mesmo esse abraço, esse beijo e esse 'eu te amo'. Nada mais.

Quando alguém me confidencia que está em dúvidas se quer ou não ser mãe, sou bem enfática: se você não tem certeza absoluta se isso é um desejo do fundo do seu coração, não seja. É uma mudança de vida muito brusca, e não só na prática, mas principalmente em todas as suas emoções. Mexe dentro de você, dos seus mais íntimos sentimentos e confusões mentais. Aquelas que todo ser humano tem. É um reboliço e é preciso ter muita certeza do que se está fazendo.

É bem recorrente ver mulheres encantadas com a maternidade olhando pelo viés da fofura de um bebê, dos trabalhos cotidianos de amamentar, dar banho, brincar... Mas se tem uma coisa que muita gente não se dá conta, é que ser mãe não é cuidar de uma criança, é criar um ser humano. É um projeto a longo prazo. Cuidar é delicioso, mas qualquer um cuida. Há pessoas pagas pra isso. Educar, transformar uma criança num adulto... são outros quinhentos e quase ninguém lembra dessa parte, que é, definitivamente, o real sentido da maternidade.

O que lasca é que eles saem de dentro da gente (seja do útero ou do coração) e a gente vira suspeita pra tudo. É difícil ser imparcial, reconhecer os defeitos deles e não querer entregar o peixe em vez de ensiná-los a pescar, por exemplo. Policio-me o tempo todo. É comum ver a Maria Eduarda tentando resolver os pequenos probleminhas da vida dela, alguém chegar e querer fazer por ela e eu dizer "Deixa! Ela tem que tentar sozinha!" E eu fico observando e disponível caso ela precise.

É uma linha muito tênue que divide nossas intervenções nesses momentos. Mas tem que ter muita convicção do tipo de mãe que você quer ser. Todas dão seu melhor. Ok, algumas nem tanto, o que me entristece (pra não dizer, revolta) profundamente. Afinal, esses pequenos seres não escolheram nascer e são cheios de pureza e amor pra dar. A presença materna, nem que seja aquela no fim do dia, pra dar o jantar, o banho e colocar pra dormir, vai fazer uma diferença gigantesca na vida da criança. Um ser humano seguro e confiante, por mais problemas que ele tenha, é fácil de detectar. E geralmente é por causa da base de família e da presença materna/paterna que ele teve. Quantas vezes precisei trabalhar até mais tarde ou tive algum compromisso à noite, e cheguei já na hora que ela ia pra cama? Corri, troquei de roupa e fui deitar com ela, contar historinha e ficar lá até ela pegar no sono. No fundo, o que meu corpo cansado pedia era um banho, um prato de comida e sossego. Mas eu não podia. Eu tinha que ficar com ela nem que fosse aqueles 20 minutinhos pra ela terminar o dia do meu lado.

Uma das qualidades da Duda que mais me orgulham é exatamente a segurança dela. Segurança de enfrentar seus pequenos desafios do dia a dia com calma, tranquilidade e certa de que ela pode ultrapassá-los.

Para nós adultos parece besteira, mas o simples fato de pegar num cachorrinho que dá um pouco de medo, sentar sozinha numa cadeira mais alta ou experimentar um alimento novo são grandes problemas pra ela. Até uma queda mais brusca deve ser encarada de forma que eu passe a confiança que ela precisa pra não fazer um escândalo sempre que cair. Caiu, levantou. E vamos em frente. Se machucar, eu estou bem ao lado pra dar um abraço, confortar e fazer sarar.

Transforme todos esses exemplos em situações sérias da vida adulta e você começará a ter uma noção do projeto a longo prazo que eu falei. Fora isso, a relação de amizade, empatia e intimidade que você está formando entre você e seu filho irá lhe trazer inúmeros benefícios quando ele for mais velho, como um diálogo aberto e prazeroso entre vocês.

E mais: tenha memória! Ela pode fazer milagres! Nunca esqueça que você já foi do tamanho dele, seja a idade que for. Tente sempre lembrar de como você se sentia em certas situações, o que você desejava ouvir nesses momentos, como você gostaria de ser tratado, etc. Na verdade, esse é um conselho que eu dou pra todo mundo em qualquer coisa. Ponha-se sempre no lugar do outro e tente lembrar de quando era com você. Muitas relações entre pais e filhos, sogras e genros/noras etc., poderiam ser salvas apenas pelo uso da memória.

Enfim, é um trabalho diário, exaustivo, repetitivo e que é compensado pelo imenso amor que a gente sente. Pela felicidade que a gente presencia só de vê-los sorrindo. E mais ainda: de vê-los se tornando o ser humano que você idealizou e que fará uma diferença positiva no mundo.

E novamente, eu digo: só seja mãe se isso for um desejo do fundo do seu coração. Eu quis isso a minha vida inteira, nunca tive dúvidas e ainda é difícil, confuso, cansativo e, muitas vezes, doloroso. Mas saber que eu tenho alguém que é meu, que eu posso ver crescendo, se transformando e pelo qual eu sou a maior responsável pela felicidade, me dá um poder e uma sensação de divindade enormes. E no fim do dia, um beijinho de boa noite já fez tudo valer a pena.

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