sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O primeiro ano do resto das nossas vidas


E de repente, um ano se passou. Ok. Não foi tão repentino assim. Muita coisa aconteceu. Em um ano, minha vida sofreu mudanças como nunca havia sofrido antes. E mudanças de todos os tipos. Mas vamos falar da principal delas, que foi ser mãe. Algumas pessoas já me perguntaram como foi que eu senti toda essa revolução que é se tornar mãe. E eu respondo que não senti nenhuma revolução propriamente dita. É como se eu sempre tivesse sido mãe e estava apenas esperando o momento do encontro com a Maria Eduarda. Nunca me peguei com a ficha caindo, o mundo todo virando de cabeça pra baixo, uma explosão de sentimentos etc., como sempre li em tantos depoimentos de mães internet afora. Isso certamente já fazia parte de mim.

Muitas foram as surpresas que tive comigo mesma. Entre elas, está o fato de a maternidade não ter me transformado como eu achei (e me disseram) que ia transformar. Tudo se deu de forma muito natural. Uma adaptação constante minha à Duda e ela a mim. Lembro que nos primeiros meses eu tive que aprender que precisava conhecer minha filha. Como ela come, o horário que ela dorme, como ela gosta de ser ninada... A gente acha que os filhos nascem totalmente crus e nós é que moldamos tudo. Ledo engano. Eles têm suas personalidades e o que nos resta é ensiná-los a melhor maneira de usá-las para viver nesse mundo. Adaptando-se, moldando-se, compreendendo as diferenças, aceitando-as. Mas claro que ela está sob meus cuidados e minha responsabilidade, e o mundo aqui deve ter regras. E aí está o grande lance da maternidade, o jogo de cintura que temos que ter: ensiná-los os valores que temos, as obrigações, e ao mesmo tempo respeitar o que está no DNA deles. Não é fácil. Mesmo com crianças tão pequenas como a Duda.

Descobri-me uma mãe cuidadosa, mas não neurótica. Lembro que tive muito medo quando estava grávida. Ainda tenho muitos, óbvio. Mas algo de sereno e positivo baixou em mim junto com o nascimento da Maria. Uma tranquilidade que, para muitos e às vezes até pra mim, soa um pouco displicente. Já me questionei muito se eu que sou uma mãe "irresponsável" ou se as outras é que são meio loucas. A segunda opção prevaleceu. Quando se fala nisso, logo surge aquele tema da famosa culpa. Confesso (até com um certo medo) que ainda não senti essa culpa toda. E olha que motivo não faltou. Nos momentos que senti, logo ela foi superada. Existe algo muito forte em mim que me diz diariamente que sou uma excelente mãe. Que diferente de muitas, sinto como se eu já tivesse nascido evoluída a esse ponto, não vendo a maternidade como uma grande revolução, uma aventura louca. É apenas a maternidade. Uma parte da minha vida que optei viver e que com certeza é a mais importante.

Acho que só tenho umas duas amigas mães, entre várias, que compactuam com essa minha forma de encarar a maternidade. Ouvi muitas dizendo que nem lembram mais como era a vida antes do filho nascer, que não conseguem mais se imaginar fazendo outra coisa, que tudo é em função do filho, que demoraram pra se desgarrar deles ou nem desgarraram ainda. Eu lembro perfeitamente de como era a vida antes de ser mãe. Lembro das várias facilidades, da paz que era, do tempo que era maior etc... Mas eu fiz uma escolha consciente e abracei todas as consequências, mesmo algumas sendo bem difíceis. Mas afinal, a vida é ou não fazer escolhas? Afinal, tudo tem dois lados, não é?

E aí me vi com uma filha de 20 dias de vida em casa e eu doida pra sair pra fazer a unha, pra ver gente, pra dirigir, pra respirar um ar que não fosse o de casa com cheiro de leite materno e cocô. Me vi indo na contramão de tudo o que me fizeram acreditar que eu queria. Me vi saindo de casa sem ela pela primeira vez com um sentimento de alívio. E isso me fez uma mãe ruim? Não. Isso nunca me passou pela cabeça. Essa foi uma das primeiras grandes surpresas que tive: me ver entendendo claramente que uma coisa não exclui a outra; que eu continuo vivendo as outras áreas da vida sem, necessariamente, deixar de ser uma boa mãe. Até porque, deixar minha filha viver essa independência é um bem que faço a ela. E a mim. E à nossa relação.

O tempo foi outra grande descoberta. Meu Deus, como ele é precioso! Ter que (e querer) trabalhar é, com certeza, o dilema de muitas mães. Hoje eu entendo perfeitamente como a gente fica tentada a jogar tudo pro ar, viver de luz e amor e só. Mas não dá. E acho que nem que eu tivesse todo o dinheiro do mundo, eu abriria mão do trabalho. O máximo que faria seria diminuir o tempo fora de casa. O tempo. Sempre o tempo. Tão valioso! Quando a Duda entrou na creche com 10 meses, fiquei preocupada, mas não porque ela tinha que ir pra lá ou porque eu estava entregando-a pra alguém cuidar. Minha única aflição era a saudade. Passar o dia longe dela, não ficar cheirando, agarrando, brincando, mordendo, acompanhando, convivendo com ela, vendo ela olhar pra mim com aquele olhão gigante. Isso nenhum dinheiro ou condição de vida é capaz de pagar. E aí eu me vi abrindo mão de passeios e idas ao salão, abandonando a necessária academia... tudo pra curtir cada segundo do lado dela. Uma contradição com o que falei antes? Talvez! Mas isso também é ser mãe.

Me peguei super feliz e orgulhosa quando ela teve uma adaptação incrível na escola. Sem choro, sem apego, sem mimimi, sem problema nenhum. Foi livre, alegre e super curiosa (como só quem conhece sabe que ela é) pra viver essa novidade. Foi outra boa surpresa que tive comigo mesma.

Quando eu estava grávida, houve quem duvidasse (e apostasse!) que eu não viveria sem babá. Coitados. Eu sempre tive isso muito claro na minha vida: eu não quero babá. É uma opinião bem pessoal e eu não julgo quem tem, mas pra mim não funciona para o modelo de mãe que eu sempre quis ser. Já disse e repito: ser mãe foi uma escolha muito bem definida desde que eu me conheço por gente. E meu modelo ideal de MÃE (e isso se estende aos pais) é colocar a mão na massa, é acabar com as costas pra correr atrás do filho que está aprendendo a andar, é não conseguir almoçar direito porque o filho não fica no carrinho, é acordar de madrugada e ir trabalhar acabada, é ficar no parquinho do restaurante brincando com ele porque ele ainda não tem idade pra ficar só, é se atrasar na hora de sair porque ele resolveu fazer cocô exatamente quando você estava na porta chamando o elevador, é não conseguir conversar com ninguém enquanto ele não dorme, é estacionar o carro na puta que pariu pra poder descer e ir você mesma buscá-lo na escola e conversar com a professora sobre como ele está indo, é pensar 100 vezes antes de fazer uma viagem com ele porque a bagagem é enorme e você não vai conseguir curtir tudo, mas você vai porque quer viver isso com ele e vê-lo descobrindo todas as novidades. Vocês não imaginam o prazer que eu sinto de ter todo esse trabalho, eu mesma! Nunca me vi desfilando de salto no shopping com meu marido enquanto uma babá de farda branca nos segue atrás levando minha filha nos braços.

O que eu quero com a Maria Eduarda é ter uma relação o mais próxima e palpável possível. É olhar no olho dela, eu mesma pegá-la no braço quando ela tem uma crise de birra, eu mesma alimentá-la, banhá-la, colocá-la pra dormir, vesti-la... sempre que eu posso. Se eu posso fazer todo esse trabalho, não tem por que terceirizá-lo. E se eu não puder, ela tem o pai, as avós, os tios... Tem uma família a qual ela tem que perceber e aprender a contar desde sempre. Tenho muita sorte e muito orgulho de estar 24 horas do dia super cansada por não ter uma babá. Era esse o tipo de mãe que eu quis ser e estou conseguindo.

Prestes a completar um ano, Maria Eduarda é uma menina tranquila, curiosa, inquietíssima (desde a barriga), ativa, feliz, saudável, esperta. É aparentemente séria. Sorri pra poucos. Como eu bem imaginei (e já havia previsto aqui no blog), ela veio com a personalidade muito parecida com a minha. Não é uma bebê super efusiva, animada, vibrante. Ela não gasta a simpatia dela com qualquer um. Adora crianças. É observadora ao ponto de não conseguir se concentrar em algo por muito tempo. Dá conta de tudo, quer olhar pra tudo e pra todos. Sempre teve um desenvolvimento de comunicação oral impressionante, tanto que com 2 meses já esboçava sons tentando imitar a gente cantando. Já tem uns meses que ela acorda falando sozinha, diz "papapapa", "dadada" e "bubububu". Certamente vai falar muito cedo igual a mim. Em compensação, está demorando pra andar. Só anda apoiada nas coisas e o tempo inteiro na ponta do pé. Mas não pulou nenhuma etapa nesse primeiro ano. Levantou a cabeça no segundo mês, sentou com 6 meses, engatinhou com 8... Tudo como manda o figurino e os livros por aí. Dá um trabalho danado pra comer, que é minha única dor de cabeça com ela. E uma baita dor de cabeça. É mais uma coisa que ela herdou de mim. Maldito castigo! Mas nada é perfeito. E até as imperfeições dela estão me ensinando. Estou aprendendo a ser mais paciente, mais forte, mais calma e também mais persistente. Comprei a briga de fazê-la comer melhor e estou, aos poucos, conseguindo.

Maria Eduarda é muito mais do que eu imaginava. Ela me faz ser todos aqueles clichês que eu detesto. Mas a maternidade é um grande clichê. Não tem jeito. E só é clichê porque é muito verdade. Ela me obriga a ser uma pessoa melhor porque eu tenho que dar o exemplo de uma boa pessoa para ela ser também. Esse primeiro ano não foi uma revolução, mas foi o primeiro de muuuuitos que a gente vai viver diferente, pensando melhor em todas as escolhas, amando mais intensamente, usando o tempo com mais sabedoria.

Obrigada, filha! Obrigada por me fazer descobrir tudo isso, me tornar tudo isso e fazer tudo isso. Estamos no caminho certo e ainda temos muito a andar. Estou sempre aqui pra você. Sua mãe. De verdade. Como a mãe que eu sempre quis ser pra você. E como te digo todo dia: você é a perfeitona da mamãe! Perfeita! Perfeita! =) =)